sexta-feira, 15 de junho de 2012

A crise das ideologias


Por Dadeus Grings

O século XIX forjou as grandes ideologias no contexto do Racionalismo e do Idealismo, então hegemônicos. O século XX tentou colocá-las em prática, passando-as do campo da filosofia para a política. Gerou o totalitarismo de diversas cores, que se apresentou, em alguns países, sob a forma de Fascismo, em outros de Nazismo e em outros de Comunismo, de índole marxista. Os dois primeiros, após fazerem toda a humanidade sofrer com sua opressão desapiedada, sucumbiram, em l945, pelas armas, que ensanguentaram  quase todos os países. Era a Segunda Guerra Mundial. O terceiro implodiu, fragorosamente, em l989. A partir de então as ideologias caíram por terra e perderam crédito. Não empolgam mais ninguém.

Mas que é, exatamente, uma ideologia? Muito simples de entender: nós, seres racionais, somos orientados por ideias. Fazemos projetos não só pessoais, para unificar nossas decisões e determinar uma meta para o aperfeiçoamento, mas também sociais. Toda a sociedade se põe a caminho numa determinada direção, que lhe é indicada pela ideia. Sem ideias não se faz nada nem se chega a destino algum. Vai-se a esmo e se perde num matagal de possibilidades. É preciso unificar as propostas com vista a uma realização concreta. Falamos de planejamento pessoal e de planejamento de governo.

Mas há alguns problemas que se interpõem. Em primeiro lugar o Racionalismo errou ao reduzir o ser humano à razão e, consequentemente, de dar exclusividade às ideias. Acontece que a realidade é mais rica do que o que dela conseguimos conhecer, e o ser humano é muito mais que um mero pensante. Contrariamente ao princípio cartesiano, ele não existe porque pensa, mas pensa porque existe. A existência, com todas as suas dimensões, sua vontade e seus sentimentos, tem prioridade sobre a ideia abstrata. Com o troar dos canhões e a explosão das bombas de duas Guerras Mundiais, o século XX, cansado do massacre dos regimes totalitários, acordou do pesadelo do Racionalismo para ceder lugar ao Existencialismo.

Bem antes de o Existencialismo levedar as massas, as ideologias arregimentavam os homens, principalmente a juventude, para suas linhas partidárias. Dividiram-nos em esquerda e direita. As posições estavam claramente delineadas, com seus consequentes comportamentos. A crise das ideologias mostra que não bastam ideias para governar o mundo. A vida é mais rica que o conhecimento.

Pascal garantia que o coração tem razões que a própria razão desconhece. É preciso abrir espaço para a fé, como dom que Deus nos infunde.

O ser humano leva uma vida caracterizada por muitas dimensões. Todas elas são indispensáveis para a realização pessoal e para a convivência social: a inteligência, a vontade, os sentimentos, vividos no plano da fé, da esperança e do amor. Não podemos subestimar nenhuma destas dimensões. Por isso não é possível, humanamente falando, tornar nenhuma exclusiva. Ao falarmos da crise das ideologias entendemos uma libertação do totalitarismo de umas ideias, que se quiseram impor a todos. Sua crise coloca o conhecimento no seu devido lugar, a serviço da verdade, da bondade e da unidade, com a mesma condição da vontade, do sentimento e da fé.

Libertando-nos do totalitarismo, a crise das ideologias também nos liberta do fanatismo e nos abre para o grande diálogo, numa convivência que se afigura mais pacífica e consoladora.

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