terça-feira, 1 de maio de 2012

ABORTAMENTO E AS CONSEQUÊNCIAS PSICOFÍSICAS MATERNAS


Antes de tudo, vamos esclarecer a aplicação dos termos. Concepto é um termo usado para designar o ser que se encontra dentro do ventre materno, independente da semana gestacional em que o mesmo se encontra. Embrião é um concepto que está em sua fase de diferenciação orgânica, da segunda à sétima semana depois da fecundação. O período embrionário termina na 8ª semana depois da fecundação, quando o concepto passa a ser denominado de feto.
E a maior das dúvidas no que se refere àetimologia, o correto é aborto ou abortamento? É importante assinalar controvérsias entre dicionários linguísticos e médicos.  A distinção entre aborto e abortamento não é clara nem usada adequadamente nos textos legais e jurídicos, aborto é formaamplamente usada nas leis e se usa aborto no sentido amplo do vocábulo. 
Recomenda-se usar, abortamento em referência a causar a morte do concepto ou à sua expulsão ou remoção do mesmo e aborto refere-se ao concepto não nascido.De acordo com a Organização Mundial da Saúde, conceituação aprovada pela Federação Internacional de Ginecologia eObstetríciaé abortamento a expulsão ouextração do concepto comquinhentosgramas, o que equivale a 20 até 22 semanascompletas.
Existem vários tipos de abortamento:
Ameaça de abortamento - ocorre um sangramento com possibilidade de abortamento oriundode uma complicação gestacional.
Abortamento acidental - ocorre por consequência de um acidente qualquer, como exemplo a queda de uma escada ou um acidente de carro.
Abortamento espontâneo - ocorre naturalmente, sendo comum durante a terceira semana após a fertilização.
Abortamento frequente - há a expulsão espontânea de um embrião ou de um feto, morto ou não, em três ou mais gestações seguidas.
Abortamento induzido - há a expulsão do feto, porém neste caso isto ocorrerá com intenção da mãe ou de outras pessoas ligadas à gravidez. Este tipo de aborto é feito com uso de medicamentos ou através de meios mecânicos, curetagem à vácuo (remoção do concepto introduzindo-se uma cureta oca no útero, através da qual é aplicado o vácuo).
Abortamento criminal - inclui-se todos os tipos de aborto feitos de forma ilegal.
Abortamento induzido legalmente - são eletivos e realizados utilizando drogas ou curetagem por sucção, com autorização do Estado.
Abortamento oculto - caso raro em que concepto fica retido no útero materno após a morte.
Esclarecidos os termos vamos abordar as implicações sofridas por essa mãe em caso de abortamento induzido legalmente. Vale ressaltar que, independente da forma como é feito, o aborto sempre deixa marcas físicas ou psicológicas para a genitora e muitas vezes aos seus familiares.
Às vezes, pretende-se justificar o aborto como a únicasaída para situações angustiantes que uma gravidez nãodesejada pode trazer. No entanto, a pior angústia vem depoisdo aborto.
Mulheres que vivenciam a perda de um filho não esperam este acontecimento, sentindo-se desanimadas, frustradas, tristes, fragilizadas, culpadas, podendo evoluir para depressão. “A culpa, a depressão e a psicossomatização são sinais de feridas psicológicas sofridas pelas mulheres, indicando quão profundamente o abortamento às sensibiliza, fazendo-as sofrer física e emocionalmente”.
O abortamento induzido, realizado com o consentimento da mulher, acarreta danos a ela, gerando, em algumas situações, sentimento de culpa por ter engravidado ou mesmo por ter abortado.  Pode ser observado que em mulheres suscetíveis, ainterrupção da gravidez pode precipitar uma reaçãopsiconeurótica ou mesmo psicótica grave, alguns psiquiatras,afirmam que cada aborto é uma experiência carregada deriscos sérios para a saúde mental.
Vamos detalhar um pouco mais sobre a interferência dos fatores psicológicos sofridos pela mãe que passa por um processo de abortamento, independente do tipo. A Síndrome Pós-Aborto (SPA)têm sido observada por terapeutas, recentemente.Sintomas como pavores irracionais e depressõesligadas às experiências abortivas desenham um quadro conhecido como “Síndrome Pós-Aborto”.
Para alguns terapeutas, algumas mulheres respondem comgrande trauma, outras com reações moderadas, enquantoque um terceiro grupo pode vir a nada sofrer posteriormente.Outros acreditam que cada abortamento produz umtrauma na mulher, independente do grau ele existirá.
O abortamento é, antes de tudo, um procedimento físico, oqual produz um choque no sistema nervoso e que deveprovocar um impacto na personalidade da mulher. Alémdas dimensões psicológicas, cada mulher que se submeteu aum abortamento deve encarar a morte de seu filho que não nasceucomo uma realidade social, emocional, intelectual e espiritual, todos ligados a um processo cultural que deve ser levado em consideração.
Alguns terapeutas trabalharam com mulheres que tentaramignorar os efeitos do abortamento e acreditam que quanto maiora rejeição, maior a dor e a dificuldade quando a mulherresolve finalmente enfrentar a realidade da experiênciaabortiva. Assim, a partir dessa perspectivateórica, admite-se que mesmo mulheres lesadas pelas suasexperiências abortivas podem, de boa fé, alegar não teremsofrido reações adversas já que os sentimentos foramreprimidos, não havendo noção consciente dos mesmos.Além disso, de acordo com a mesma teoria, quanto maior arepressão, maior a rejeição e maior é o dano à personalidadeda mulher.
Para os defensores do aborto somente asmulheres com problemas psicológicos anteriores têmdificuldade em suportar as experiências abortivas.As própriasmulheres discordam dessa proposição. Contudo, pode serverdade que mulheres com problemas prévios sejam maissusceptíveis às reações mais graves.  Pode-se, entretanto,concluir com certeza que essas mulheres deveriam serprotegidas de traumas futuros induzidos por experiênciasabortivas.
Quais são os problemas que uma mulher que autorizouum aborto deve encarar? Quando uma mulher aceita submeter-se a umaborto, ela concorda em assistir à execução de seu própriofilho. Isso também vai contra a realidade biológica da mulher,que é programada precisamente para cuidar e nutrir o seu filhoainda não nascido.  O abortamento é tão contrário à ordem naturaldas coisas, que automaticamente induz uma sensação deculpa.
A mulher, entretanto, deve admitir a sua culpa parapoder conviver com ela.De acordo com a literatura, existe uma escola depensadores, adotada pela maioria dos promotores deabortos, que afirma ser a admissão da culpa não necessária.Eles sustentam que se uma mulher se sente culpada é porquealguém “colocou a culpa nela”. Ao contrário, as mulherespertencentes ao movimento de Mulheres Vitimadas peloAborto relatam que a culpa se manifestou e cresceu com aprópria experiência abortiva, foi parte da reação própria aoaborto e não infundida nelas por outras pessoas.
A primeira providência enfatizada pelos clínicos quetrabalham com mulheres que se submeteram a abortos éfazer com que elas chorem pelo filho perdido.  Como sepode resolver o problema? Em primeiro lugar, a mulherdeve admitir que a criança está morta, de maneira que elapossa chorar por ela. Para chegar a este ponto a mulher tem que quebrar as suas rejeições para permitiroreconhecimento da culpa.
Os terapeutas desenvolveram estratégias diferentes paraajudar a mulher.  Isto dá a mulher uma oportunidade de se“desculpar” com o bebê morto pelo sucedido e começar aviver o luto pela criança perdida.Uma dessas abordagens requerque a mulher exteriorize a dor de sua experiência, pois osefeitos do aborto atingem a vida de cada indivíduo à voltada mulher, incluindo os seus amores e filhos futuros.Felizmente, a mulher que se curou estará apta a lutar parasuperar esses problemas, mas nunca será fácil e sempre serádoloroso.
A maioria das mulheresque se submeteram a abortos teria preferido outra soluçãopara o problema?  O aborto não é definitivamente uma“solução fácil” de um grave problema, mas um ato agressivoque terá repercussões contínuas na vida da mulher e é nessesentido que ela é vítima do seu próprio abortamento.
Ainda como consequências psíquicas envolvendo o abortamento: Sentimentos de remorso e culpa; Oscilações de ânimo e depressões; Choro imotivado, medos e pesadelos. Quanto ao sentimento de culpa, já tentaram atribui-lo a crenças religiosas, como citado anteriormente. Certamente, há sentimentos de culpabilidade originados por convicções religiosas, mas a maior parte destes sentimentos posteriores ao aborto tem muito pouco que ver com a crença religiosa, estando ligadas a violação de algo muito profundo na natureza da mulher. Ela é naturalmente a origem da vida e é normal que a mulher grávida esteja consciente de que cresce uma criança dentro dela.
Outros sintomas: queda na autoestima pessoal pela destruição do próprio filho, frigidez (perda do desejo sexual), aversão ao marido ou ao amante, culpabilidade ou frustração de seu instinto materno, desordens nervosas, insônia, neuroses diversas, doenças psicossomáticas e depressão.
O abortamento pode comprometer a saúde da mulher emgraus variáveis. A gravidade das complicações mórbidasadvindas do abortamento tende a aumentar com a duraçãoda gravidez. Por exemplo, um abortamento no segundo trimestreda gestação é mais perigoso que um no primeiro trimestre (<12 semanas).
A gravidez em que cresce dentro da mãe um bebê com merocefalia (quantidade reduzida de tecido encefálico comparado ao fisiológico) termo preferível por ser mais adequado em relação à anencefalia, não tem qualquer repercussão para saúde materna, se comportando como uma gravidez normal.
As implicações que podem ocorrer são as mesmas que podem existir em gravidez de um concepto normal. Em cerca de 25% dos casos, é produzido líquido amniótico em demasia (poliidrâmnios). Isso se deve ao fato de que a criança não tem os reflexos que a habilitam a engolir o líquido amniótico. Se o volume de líquido é excessivo, pode causar desconforto para a mãe. O trabalho de parto pode ocorrer prematuramente, ou a bolsa d’água pode-se romper. Uma amniocentese pode então ser feita para reduzir o volume de líquido. O excesso de líquido amniótico é removido com uma seringa, oferecendo assim à mãe um alívio temporário.
Um especialista experiente usando um exame de ultrassom de alta resolução pode detectar a anencefalia logo pela 10ª semana. Em circunstâncias não ideais, contudo, a anencefalia não pode ser detectada ou excluída por um exame de ultrassom até a 16ª semana de gravidez.
Os níveis de Alfa Feto Proteína podem ser medidos por exame do soro materno (exame de sangue). Se os níveis são altos, há o risco que a criança possa sofrer de um defeito de soldadura do tubo neural (DSTN). A amniocentese (punção do útero para retirada de amostra de líquido amniótico) é um outro tipo de exame feito para determinar se há realmente um problema.
Recordando que o abortamento de conceptos após a 12ª semana gera maiores implicações a saúde materna e não sendo possível detectar antes os riscos de abortamento são maiores que manter a gravidez até o final.
A seguir, descrição do método normatizado e utilizado em um grande hospital do Recife, em estudo de consequências causadas pelo abortamento:
A aspiração manual a vácuo (AMV) era realizada por médicos plantonistas e residentes do CISAM segundo técnica normatizada no serviço e descrita a seguir: com a paciente em posição de litotomia, eram realizados anti-sepsia da genitália externa e região perineal, toque vaginal (para avaliar tamanho e posição do útero), introdução do espéculo vaginal com visualização completa do colo uterino, bloqueio cervical com lidocaína a 2% sem vasoconstrictor, infiltrando-se 2 a 4 mLàs 5 e 7 horas, pinçamento do colo com Pozzi e histerometria da cavidade uterina. O próximo passo era a aspiração manual a vácuo, que consistiu na retirada do conteúdo uterino por sucção, mediante transferência de vácuo produzido em seringa de 60 mL (seringa de Karman), conectada a cânulas plásticas cujos diâmetros variaram de 4 a 12 mm, selecionadas de acordo com o diâmetro do colo. Quando o colo não permitia a penetração da cânula com o menor diâmetro disponível, realizava-se a dilatação cervical com velas de Hegar. O procedimento era realizado por movimento de vai-e-vem da cânula e dado como concluído quando da observação de sangue vermelho-vivo, espumoso, fluindo do canal cervical, bem como pela percepção da limitação dos movimentos da cânula apreendida pelas paredes uterinas na presença de vácuo”.
As pacientes foram examinadas após 40-60 dias de realização do procedimento. O objetivo do estudo era identificar a prevalência de aderência intrauterina que se situou dentro da faixa de 15 a 19% referida na literatura após esvaziamento uterino com método cirúrgico.
Alguns esclarecimentos a respeito das consequências psicofísicas maternas, relacionadas ao abortamento, foram elucidadas, mas esse ainda é um vasto campo de pesquisa ainda pouco explorado. Esse texto foi construído para iniciar uma reflexão sob outra óptica, explorando detalhes que por vezes são omitidos.
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